segunda-feira, 11 de outubro de 2010

TiRo De MiSeRiCóRdIA!!!




Estamos agonizando... o Planeta está.
As coisas que vemos são, no mínimo, a mais pura constatação de que o Apocalipse começou (e já tem tempo!)
Estava eu indo no final de semana pra casa de um amigo, quando, dentro do ônibus super lotado, entrou uma senhora com duas sacolas grandes e pesadas. O ônibus estava cheio, impossivelmente cheio. Ela tinha duas sacolas. E os bancos preferenciais tinham os lugares lotados.
Mais atrás, uma menina de uns 7 ou 8 anos, talvez 10, no máximo, estava sentada com aquele ar de "ai meu Deus, eu quero morrer aqui!" e "danem-se vocês!", olhou para a senhora que, fez questão de estacionar na frente dela com olhar questionador e cheio de direitos, do tipo: "milha filha, eu sou velha e você é criança, levanta pra eu sentar!" e a menina ignorou com olhar frio e tedioso.
Todos se entreolharam procurando a reação de uma possível mãe que fosse dizer pra menina: "sai daí e deixa a senhora sentar!", mas foi em vão... ninguém se pronunciou.
Uma pergunta se inquietava na mente das pessoas:
1. Estaria a menina sozinha? Cadê a mãe?
2. A mãe fingia que não tava acontecendo nada, sonsamente, com cara de que não era com ela!
3. A mãe em poucos momentos detectaria a senhora de pé ao lado e pediria pra pra menina sair?
4. Alguém se levantaria e cederia o lugar pra senhora?
5. Alguém falaria com a menina pra sair?


Nãoooooo! ...os segundos se passaram e ninguém se pronunciou, nada aconteceu!


A mulher com as sacolas demonstrava impaciência e frustração.
O ônibus cheio andou algumas quadras e a senhora, com as sacolas já apoiadas no chão, olhava atentamente para ver se vagava alguma cadeira, em vão.
Finalmente, depois de algumas freiadas, paradas e sacolejos, ela olha pra menina firmemente e diz:
- Meu anjinho... onde está sua mãe? Olha, essa vózinha aqui está bastante cansada, não tinha como você ir sentadinha no colinho da vovó, só pra eu não ficar chacoalhando o tempo todo, además, minhas pernas estão doendo muito. E deu um sorrisinho descrente.
A menina, para surpresa de todos, olhou com cara de desdém, examinando minuciosamente cada detalhe da velha senhora, coçou a cabeça, fez cara de tédio e virou-se pra cadeira atrás, do lado oposto, tentando fazer contato visual com a mãe, que se escondia atrás de dois ou três amontoados no espaço mínimo do corredor e gritou: Mãe! Ô Mãe! Tem uma mulher querendo que eu saio do banco pra ela sentar e eu num vou sair não!


... (Expectativa Geral) 


Silêncio!


Novamente nada aconteceu.
Mais uma curva, mais um buraco, um solavanco! E a Senhora reclamou com a menina, já em tom mais impaciente:
- Menina, cadê sua mãe?
E a menina apontando o dedo mole e displicente na suposta direção da mãe disse:
-Tá ali, ó! Aquela de blusa vermelha, cabelo preso com um lápis e uma nenêm no colo.
A velha se esticou pra ver se alcançava, mas não conseguiu ver muito.
Daqui a pouco ela viu, na cadeira apontada, uma moça bem morena e volumosa, de rastafari, amamentava, com os peitões expostos uma bebezinha de uns 8 meses. Dois meninos (gêmeos) de uns 4 anos sentados ao lado, imprensavam uma outra menina de uns 6 anos, com uma sacola de bebê que tomava mais da metade do assento dos pobres. Aos meus olhos e olhos curiosos (críticos e pasmos) de todos, pensamos em uníssono:
Meu Deus, que louca!!! Será que é mãe dessa tropinha toda? Não eram sujos ou catarrentos, apenas simples.
A menina aquietou-se, virando as costas pra senhora e escondendo a cara por entre os braços em posição de travesseiro de dormir.
A senhora suspirou com cara de batalha perdida e o burburinho começou:
- Acho um absurdo fazer isso... colocar criança no lugar de adulto! - Tem gente que é folgada mesmo, onde já se viu? - Nossa a mãe tá lerda ou tá morta? - Ah, não... ninguém vai dar lugar pra senhora, não? - É... o mundo tá perdido!!!
Mais alguns esbarrões e freiadas bruscas, a idosa certamente pensando no trajeto longo a ser percorrido, olha impaciente em volta, tentando ajeitar-se no mínimo espaço disponível e cutuca a menininha novamente:
- Filha, deixa a vovó sentar aí e você vai no meu colinho, prometo.
Os marmanjos sentados nas cadeiras próximas enfiavam a cara no vidro, aumentavam o som de seus MP3... cruzavam os braços e pernas e fingiam que estavam em outro planeta!
A garotinha já também enraivecida, olha pra trás e solta um grito ainda mais alto:
- Ô Maêêêêêêêê, a mulher quer que eu saio daquiiiiiii!!!!!
E a senhora se espremendo entre as brechas pra ver o rosto e reação da mãe, a encontra e, aliviada´e sem jeito diz:
- É que eu to tão cansada minha filha, e o ônibus tá tão cheio, que eu queria sentar e levar ela no meu colo, tudo bem?
- E a moça gorda, de uns 28 anos, olha pra senhora e diz, pra espanto de todos:
- Ô tia, eu paguei a passagem dela, e uma pros meninos, pra ela não ir em pé e nem apertada, então, ela não tem que dar o lugar dela pra ninguém, não, viu?! Só porque ela é criança tem que ir de qualquer jeito? Nãooooo minha filha, EU PAGUEI a passagem, entendeu? NÃO VAI SAIR NÃO, NENHUM! TA CERTO?
Todo mundo ficou pasmo! Sem ação! Indignado!
A senhora, com um misto de revolta, ódio, instinto homicida e vergonha, olhou impotente pra todo mundo, meio que implorando um motim, e amaldiçoando disse: - Tá certo... você nunca vai ficar velha... e se encolheu toda.
Uma moça que tava cheia de livros de faculdade, vestindo jaleco e roupa branca, levantou-se puta c/ os marmanjos e espremidamente entre as pessoas cedeu o lugar pra senhora, que, nesse momento, já estava resignada a ir os 20 e tantos km de pé. 
Com raiva e decepção ela agradeceu, dizendo que estava bem e ruminou entre dentes que Deus sabia de todas as coisas...
O ônibus ia lentíssimamente, pesado, abafado e barulhento... o nervosismo calado cerrava os cenhos e endurecia os humores. Era uma bomba relógio!
Na terceira parada um barulho e um chacoalhão! 
- Opa! o que é isso? Que cheiro estranho... Aconteceu alguma coisa!
E os curiosos se dobravam na direção da janela esquerda tentando ver algo.
A velocidade foi diminuída... um barulho batendo, batendo... e o carro foi parado!
- Ah, não! Pelo Amor de Deus! O que foi, motorista? Revolta geral.
- Pera que eu vou ver, mas acho que foi o recapeamento do pneu que foi pro pau! e foram dos dois, tenho certeza!
Pescoços esticados, caras fora da janela... e o motorista volta balançando a cabeça e dizendo:
- Acabou a alegria! Desce todo mundo!
- O queeeeê? - Ai meu Deeeeeeus, só faltava essa! 
- Ixi, vou chegar amanhã em casa! 
- Tem certeza motorista?
E a multidão indignada e reclamenta descia como boiada pro matadouro.
A senhora ficou quieta, de olhar parado sentada no banco, como que pensando no que seria o "próximo" onibus, com a carga vinda e mais essa, além do tempo de espera!
Desceu todo mundo... ficaram uns velhinhos, duas pessoas com criança e a tal moça com os 5 filhos.
Os velhinhos, se solidarizando, se aproximaram pra dar apoio pela falta de bom senso da mãe da menina, afirmando da barbaridade do mundo de hoje, da falta de respeito, de amor, de Deus.
A mãe dos meninos, enraivecida, pensava no que  ia fazer pra colocar 5 crianças, mais bolsa, num onibus superlotado e agora, sem lugar pra todos. Talvez conseguisse um, se alguém tivesse caridade, e se não?
Não tinha mais nada pra piorar... pensavam, até que o próximo onibus, também já cheio se aproximasse e, todo mundo em selvagem tumulto sentindo a iminência ameaçadora da tempestade com ventanias e raios, desabasse rápida, pesada e impiedosa sobre os pobres coitados!
Detalhe: a parada de ônibus depredada na beira da estrada, não tinha sequer uma telha pra se esconder embaixo, era só um resto de construção em pedaços e uma placa.
Reflexão - Será que foi castigo ou mero acaso?
Penso, diante de tudo isso, que faltou um pouco de bondade... dos homens e do tempo!


Beijos.



Um comentário:

  1. Acredito que muitos dos cidadãos de Brasília esqueceram o sentido da palavra RESPEITO. Infelizmente, convivemos diariamente com esse tipo de situação. É triste e lamentável. Mas, consegui rir com sua história, Leninha...afinal de contas, a vida já é tão dura, para que dramatizar mais, não é mesmo? Eu penso que é bem melhor sorrir do que chorar. Beijos

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