Quando a vida que morava no corpo do meu pai foi embora em 30 de março de 2005, jamais imaginei que sentiria tantas coisas, e que viveria tantas outras.
Pensava que a presença dele, muitas vezes incômoda, repressora e vigilante, servia apenas pra me manter de rédeas curtas... apenas para me provar que ele estava no controle e que eu tinha que me submeter às suas regras (que eu julgava abusivas, mercenárias e absurdas).
É... as coisas mudam! Ah... como mudam!
Com o passar dos dias, das experiências, das decepções, a gente vai tomando uma ótica diferente e distinta de tudo que existia antes. Somos forçados, quase estupradamente, a ceder a conceitos que antes abominávamos. Ponderação significava pra mim medo e falta de atitude ou coragem, hoje vejo como sabedoria e auto-preservação, mas não mais como simples acomodação e covardia.
Aprendi, com meu velho pai (que sempre foi velho, desde moço), algumas muitas coisas... de uma maioria que passou desapercebida pelos olhos infantis ou revoltosos da juventude incauta. Agora as revejo, muitas vezes em lições e situações que me constrangem pela inexperiência de não saber enfrentá-las, e me questiono se quando ele me ensinava, teriam mesmo elas sabor tão amargo ou entrelinhas tão difíceis de discernir e entender. Sim... tudo parecia mais fácil, talvez porque ele estava ali!
Lembro que ele franzia a testa quando eu ia contar minhas (mirabolantes) histórias... e às vezes eu percebia seu olhar distante ou via ele interagir com minha indignação, acompanhando mimicamente e em sincronia, os movimentos do meu rosto na expressão dos sentimentos (eu ria lá dentro).
Ele discordava de muitas coisas, eu sei. Nem sempre dizia o que pensava. Dizia sim, quando achava que eu estava passando dos limites. Às vezes ficava calado (e eu ficava brava, achando que ele não se importava) ou então quando dizia alguma coisa displicentemente, dando menos valia ao que o “tema” parecia exigir e eu sentia que ele não queria falar sobre aquilo. Mudávamos o assunto e se depois valesse a pena, eu insistia. O resultado? não mudava muito. Rsrsr...
Hoje sei, que mesmo quando não era a reação que eu queria, sabia que ele me ouvia. Que alguém me ouvia... E isso me faz falta absurdamente!
Meu pai foi um homem sempre velho... já disse.
Sentia orgulho em conversar longamente com ele. Observava aquele homem simples, com pouco estudo, dissertar sobre quântica, ressonância, leis da física e tantas outras, sem tornar-se repetitivo ou confuso, cheio da sabedoria de quem teve tempo pra aprender e decodificar coisas complexas pra uma forma mais simples. Conversávamos horas e horas.
Poucas vezes o vi sorrir escancaradamente. Mas o vi chorar de emoção, de ressentimento, de solidão, sempre envergonhado e extremamente constrangido por demonstrar algo mais íntimo ( e nisto nos parecemos muito).
Ele se escondia. Temia expor sua “fragilidade” e por conta disto, pra que ninguém percebesse que ali, tinha um homem carente e triste, ele se travestia de frio ou indiferente, de forte e auto-suficiente. Mas era tremendamente só.
Quando foi ficando próxima a sua morte, anos cercanos dos 82 quando se foi, antes de sequer imaginarmos que ele iria, fui surpreendida por um rápido desabafo: ele me disse que já estava cansado desta vida e que era um velho... já não tinha que fazer tudo sozinho.
Senti que o fardo estava muito pesado sobre seus ombrinhos, e que suas pernas já não tinham a força de antes pra sustentar o peso das responsabilidades cotidianas. Ele queria descansar!
Senti que o fardo estava muito pesado sobre seus ombrinhos, e que suas pernas já não tinham a força de antes pra sustentar o peso das responsabilidades cotidianas. Ele queria descansar!
Numa de suas confissões, que ao final foram tantas, embora sutis que quase ninguém percebia. Ele disse que tinha medo de perder a consciência e de precisar da caridade dos outros!
Não sei se isto era medo ou orgulho. Ele precisou sim, antes da morte, de uns poucos dias dos nossos cuidados, da nossa manifestação de amor, solidariedade e gratidão por todo o seu empenho, no “seu melhor”. E ele se constrangia enormemente. Era um gigante doente, que não sabia como ser menino, como ser dependente. E se revoltava com isso, impotentemente.
E... se entregou à fatalidade!
Cansou de resistir... desistiu.
Mas aprendeu e reconheceu, que o amor e a gratidão são moedas preciosíssimas.
Experimentou, ainda que contra sua resistência, o sabor inesquecível e embriagador dos sentimentos daqueles que nos amam, não importando se as circunstâncias exigem mais dedicação que a nossa consciência nos impele, ou se nos damos, finalmente sem egoísmos em doses generosas e fartas, buscando amenizar nossas culpas e nossas ausências.
Aprendemos também nós (de um jeito ruim), que somos mortais e breves! E que o momento de sermos plenos não se condiciona aos nossos pensamentos ou costumes, mas sim à nossa necessidade de sermos inteiros enquanto é tempo.
Sinto saudades... muitas. De tantas coisas, que nem sei falar! Principalmente de suas brincadeiras desajeitadas, seu humor estranho, seu jeito de ímpar de ser.
Tenho os olhos marejados de mar! Um oceano se esconde em meu peito e os meus gritos ecoam dentro das muralhas que fiz pra conter meus medos.
O que não daria pra ter novamente, por alguns segundos que fosse, seus braços em volta de mim e seus olhos, ainda que bravos por alguma coisa errada que fiz, me olhando profundamente, mas sentindo que esse alguém é parte de mim.
Ele sabia, que de todos os filhos, a mais rebelde era eu, e ainda sou! Sabia que de todos, a mais verdadeira, a mais companheira, quem mais o amava sou eu. E sabia ainda, sem questionar ou temer, que se preciso fosse, eu lutaria, eu mataria, eu morreria por ele, porque nisto, nós somos muito iguais.
Eu tinha coragem de dizer não! De peitar suas imposições! Mas ele me respeitava por isto, mesmo quando algumas vezes sua intolerância e até covardia tentava sufocar meu ímpeto e domesticar minha personalidade.
Ele me amava e eu também a ele. Do nosso jeito.
De um jeito que eu não sei se ele entendeu.
De um jeito que só hoje eu entendo.
Ah, Paizinho... de uma coisa eu tenho certeza: vamos nos levar um ao outro, cheios de orgulho desse encontro (meio turbulento e tão intenso) por onde formos, com amor, pra sempre e eternamente!
Feliz Dia Dos Pais, Papai!
Muitos Beijos, cheios de saudades!
Sua Filhinha
Muitos Beijos, cheios de saudades!
Sua Filhinha

Querida,
ResponderExcluirNada mais luxuoso do que iniciar um blog falando justamente do próprio pai. Te saudo e recebo na blogosfera. Invente, crie, solte, e deixe estar. Não tem segredos.
Beijo.
Ivan.